O JOGO
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Estilo Guardiola ou estilo Felipão???

TESTEIRA_PLANETA BOLA

– Na quarta-feira (15) li a coluna de Tostão, cracasso brasileiro da década de 70 e um dos expoentes quando se trata de analise futebolística – aliás, recomendo a todos que o acompanhem às quartas e domingos na Folha de São Paulo.

– Em apertada síntese, o ex-camisa 9 do Cruzeiro (o 10 daquele time era Dirceu Lopes) destaca a revolução frequente que o genial Pep Guardiola faz em seus times e no futebol, de modo geral, ressaltando quanto prefere suas características às do time de Felipão, hoje no Palmeiras.

– De fato, concordo com Tostão em quase todos os pontos de sua análise. É evidente que o jogo apoiado, ofensivo e de bom trato da bola empregado pelas equipes de Guardiola é muito mais agradável do que o futebol truncado, defensivo e de ligações diretas de Luiz Felipe. Não dá pra negar.

felipão– Seria herege de minha parte dizer que não admiro e me encanto com o “tiki-taka” do Barça de Pep, a sua mutação para uma equipe mais vertical no Bayern e sua nova mutação para as dominantes exibições de seu Manchester City, mas vamos com calma…

– Felipão é um dos treinadores brasileiros mais vencedores de todos os tempos. Suas escolhas táticas podem não ser aquelas visando o jogo mais bonito, mas é inegável que funcionam. Sua preferência por inflar o meio-de-campo para impedir o adversário de construir contra sua equipe pode ser questionável do ponto de vista ofensivo, mas é, inegavelmente, muito interessante a uma compactação e segurança defensiva.

– Tachar o treinador palmeirense de retrógrado e retranqueiro me parece incorreto. Suas equipes buscam sim as vitórias, quer seja nas bolas paradas, quer seja nas bolas alçadas na área aos seus centroavantes ou até em contra-ataques mortais. É a escolha de jogo do treinador, e que, ao menos nesse início, tem trazido de volta a esperança aos palmeirenses.

– Tostão, ao meu ver incorretamente, traz que o Palmeiras ganhou do “fraco Cerro Porteño, do Paraguai”. Vamos com calma. O Cerro fez a quarta melhor campanha da 1ª fase da Libertadores. Passaram 16 equipes. Se o quarto é fraco, imagine o Colo-Colo que foi 19º e só passou por estar em um grupo fraco.

– Entendo que se Felipão tivesse as peças de Guardiola, não abriria mão de alguns de seus conceitos – ao menos dois volantes, um centroavante de área –, mas tentaria fazer algumas coisas como o espanhol – marcação pressão com linhas altas, maior troca de passes no meio-de-campo, etc.

– Agora vamos ao imaginário: 1 – Como Luiz Felipe articularia no Palmeiras uma linha alta tendo atletas lentos como Felipe Melo, Bruno Henrique, Edu Dracena e, até mesmo, Antonio Carlos? É absolutamente inviável. 2 – Como Felipão vai pedir para a equipe paulista buscar superioridade numérica com triangulações tendo um centroavante de área como Borja e meias articuladores de bolas enfiadas como Lucas Lima, Moisés e Scarpa? É inviável!

– Todo técnico precisa saber lidar com o que tem e montar a melhor equipe possível. Para Guardiola é excelente o City ter Gabriel Jesus, Aguero, Sané, Mahrez e Sterling na sua primeira linha. São atletas velozes que podem marcar alto e recompor com facilidade. Além disso, numa eventual roubada de bola, a verticalização ocorre com velocidade e facilidade imensas. É um perigo iminente aos adversários.

- Valorizar a bola? É a coisa mais simples do mundo com De Bruyne, David Silva, Gundogan, Fernandinho e até mesmo os defensores Laporte, Kompany e Ederson! É sério, o goleirão do City seria camisa 10 em várias das equipes brasileiras. É a característica do time de Pep, que na primeira temporada não levou nada e que agora começa um processo de dominação na liga inglesa difícil de ser impedido. Porém, é algo inviável nos gramados nacionais.

- Na seleção brasileira não é inviável! Imaginem o Brasil com a geração que vem surgindo. São muitos jogadores que gostam e tratam a bola com muito carinho. Além disso, atletas de vigor físico, que podem marcar alto. Arthur e Paquetá, por exemplo, já tem nível muito elevado até para os padrões europeus.

– Felipão tem que trabalhar com o que dispõe e tem feito muito bem. Talvez não tão bonito quanto Guardiola, mas com certeza tão bem quanto. Com todo respeito ao mestre Tostão, mas há de se respeitar todas as formas de jogo. Defender e atacar, é tudo uma questão de estilo e ocasião, sempre lembrando o velho ditado: “A ocasião faz o ladrão”.

Fraternal amplexo.

RENAN BINOTTO ZARAMELO

Advogado e jornalista